Férias da Gravata

Postado em 12 de agosto de 2014 Por Em Camargo Escreve E 1123 Visualizações

FÉRIAS DA GRAVATA

Férias da Gravata

Gosto de viajar. Mas não gosto de planejar a viagem, montar programa com os lugares a visitar, como chegar, o que fazer. Isso não, porque fiz o suficiente quando viajava para atender compromissos profissionais – foram mais de vinte anos feito caixeiro viajante percorrendo o Brasil e os países da área do Mercosul. Uma vez, no aeroporto de La Paz, fiquei parado com a maleta na mão sem saber se eu estava chegando ou se deveria embarcar para outro lugar. Para quem viaja com muita frequência isso não é incomum de ocorrer. Mas, agora não mais.

Agora me preocupo apenas com o período, aliás, a bem da verdade, nem com isso. Jamais irei para qualquer lugar ou época em que faça menos de 24ºC. Fujo do frio em busca de lugares mais quentes, trocando o meu inverno pelo verão alheio. Sou um idoso em férias e isso significa roupas claras e frescas, sem agasalhos, resultando em bagagem pouca e leve. Trajes formais, profissionais ou mesmo sociais, de há muito foram doados. O máximo de formalismo a que me permito é calçar tênis preto e vestir uma jaqueta sobre uma camiseta polo, como me apresentei na solenidade de formatura em direito da minha mulher.

Estou de férias. Seguindo viagem para lugares mais quentes, sempre os mesmos porque não tenho mais idade de me aventurar ao desconhecido, assim sigo minhas rotinas e os hábitos, princípios e regras consolidados no viver, bom ou ruim dependendo das circunstâncias dos seus momentos. Para mim, deliciosos momentos, mesmo os lamentados na ocorrência como as perdas que, depois, foram absorvidas e compreendidas como parte do todo natural. Farei as mesmas coisas, dos deveres aos prazeres e, sempre que possível, somando os dois: extrair prazer dos sonhos no dever de dormir e usufruir do sabor no dever de se alimentar, como exemplos.

E, ressalto que os lugares também serão os mesmos: os hotéis e restaurantes já conhecidos de viagens anteriores. Conheço qualidades e defeitos – a recíproca é verdadeira, eles também conhecem meus hábitos e convivem com o meu agradável e o meu desagradável (que não tenho, nem sou, claro). Vou aos mesmos teatros, às mesmas livrarias, passear nas mesmas praças, rir com o divertido, admirar a alegria das crianças, olhar pessoas e coisas bonitas, ver as mesmas vitrines das mesmas lojas e achar os preços caros, como sempre foram e sempre serão.

E, mais uma vez, deixarei de conhecer e experimentar os apetitosos e extravagantes pratos apresentados como verdadeiras obras de arte da cozinha contemporânea, como deixarei de assistir a alguns atraentes espetáculos orquestrais, e de visitar alguns museus cujos acervos mereceriam meus olhares, assim como aos belíssimos templos religiosos que ficam fechados para se protegerem de ladrões e de vândalos. Estou impedido de frequentá-los. São lugares requintados que se alçaram à condição de estabelecer exigências comportamentais e de apresentação. Mortais comuns em férias não podem, pois além de aprisionados pelas armaduras dos trajes formais, pagariam o excesso de bagagem do guarda roupas extra. Eu? Quero a liberdade do ser velho, aposentado e liberado das formalidades. Sou um velho em férias, leve e solto.

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